terça-feira, 14 de junho de 2011

Redes sociais prejudicam a inteligência?

Não resisti a copiar esse texto, já reproduzido pelo Observatório da Imprensa.


A armadilha do Twitter
Bill Keller # reproduzido de O Globo, 3/6/2011

Semana passada minha mulher e eu autorizamos nossa filha de 13 anos a entrar no Facebook. Em algumas horas ela acumulou 171 amigos e eu me senti um pouco como se tivesse dado à minha filha um cachimbo com ópio.

Não pretendo ser um estraga-prazeres. Edito um jornal que abraçou a nova mídia com entusiasmo e criatividade. Entendo que a internet alcança e mobiliza uma audiência global, que ela convida à participação e facilita - até certo ponto - a apuração de notícias. Mas, antes de nos rendermos à idolatria digital, devemos ponderar que a inovação sempre tem um preço. Às vezes imagino se ele não é um pedaço de nós mesmos.

O cativante best-seller Moonwalking with Einstein, de Joshua Foer, cita um colossal exemplo do que nós trocamos pelo progresso. Até o século 15, as pessoas eram ensinadas a guardar uma vasta quantidade de informações. Façanhas da memória - como recitar de cor livros inteiros - não eram raras. Então surgiu o Mark Zuckerberg de sua época, Johannes Gutenberg. À medida que nos acostumamos a depender da página impressa, o hábito de guardar de cor caiu gradualmente em desuso. A capacidade prodigiosa de se lembrar ainda existe, mas, para a maioria, está na garagem.

Meu pai, que estudou engenharia no MIT na época da régua de cálculo, lamentava que a calculadora de bolso, com todas as suas conveniências, reduziu a capacidade matemática de minha geração. Muitos de nós descobrimos que a navegação por GPS comprometeu nosso conhecimento sobre as ruas da cidade e talvez tenha até prejudicado nosso senso inato de direção.

Bater à máquina matou o ato de escrever à mão. Twitter e YouTube estão tirando nacos de nossa atenção. E o pouco de nossa memória que não entregamos a Gutenberg abdicamos em favor do Google. Por que lembrar se achamos em segundos?

Robert Bjork, que estuda memória e aprendizado na UCLA, notou que mesmo estudantes muito inteligentes, familiarizados com o Excel, não são capazes de perceber nos dados padrões que seriam evidentes se não tivessem deixado o programa fazer a maior parte do trabalho.

Foer leu que a Apple contratara um grande especialista em mostradores monitorizados - os painéis transparentes usados por pilotos. Ele se pergunta se isto significa que a Apple esteja desenvolvendo um iPhone que dispensaria usar os dedos no teclado. O comando viria diretamente do córtex cerebral (a Apple não quis comentar).

Estamos terceirizando nosso cérebro para a nuvem. O lado positivo é que isto libera massa cinzenta para coisas importantes. Mas meu pessimismo imagina se as novas tecnologias não estariam erodindo características essencialmente humanas: a capacidade de refletir, a busca por significado, a empatia genuína, um senso de comunidade conectado por algo mais profundo.

A mais óbvia desvantagem das mídias sociais é que elas são agressivamente distrativas. O Twitter não é uma mera presença no ambiente. Ele exige atenção e resposta - é o inimigo da contemplação e do aprofundamento. Cada vez que o notificador apresenta na minha tela um novo tuíte, eu experimento um pequeno surto de dopamina que me distrai imediatamente daquilo que eu estava fazendo, mas... mas... o que era mesmo que eu estava fazendo? Minha desconfiança em relação à mídia social é intensificada pela natureza efêmera dessas comunicações.

Não estou nem mesmo seguro de que esses novos instrumentos sejam genuinamente "sociais". Há algo decididamente falso sobre a camaradagem no Facebook, algo ilusório sobre conectividade do Twitter. Espreite uma conversa na multidão digital e, muito frequentemente, ela é reduzida e redundante.

Como uma espécie de experiência masoquista, outro dia tuitei "#Twittertorna você burro. Discuta." Isso produziu poucos flashes de inteligência ("Dê algum crédito a nossas escolas públicas!"); um par de respostas óbvias ("Depende de quem você segue"); algumas especulações compreensíveis de que minha conta tinha sido hackeada; e um monte de gírias. Quase todo mundo que não tinha algo profundo a dizer em resposta à minha pequena provocação preferiu fazê-lo fora do Twitter.

Numa discussão real, a informação é cumulativa, a complicação é reconhecida, às vezes a persuasão ocorre. Numa discussão no Twitter, opiniões e nossa tolerância às opiniões alheias são atrofiadas. Não sei se o Twitter torna você burro, mas ele faz algumas pessoas inteligentes parecerem burras.

Percebo que estou atraindo fogo de tuiteiros apaixonados, de acadêmicos que adoram idolatrar novidades e de colegas do "New York Times" que estão criando uma estratégia para a mídia social com o objetivo de ampliar o alcance de nosso jornalismo. Então deixe-me esclarecer: o Twitter é um recurso brilhante - um megafone para promoção, uma rede para a informação, uma valiosa ferramenta para organizar tudo, de encontros de donos de cães a revoluções. Embora eu não seja muito tuiteiro e preste pouca atenção à minha conta no Facebook, gosto de ver algo que escrevi cair na Twittersphere, mesmo quando sei - como agora - que o veredito da massa será hostil.

As desvantagens da mídia social não me incomodariam terrivelmente se eu não suspeitasse que a amizade de Facebook e a conversa no Twitter estão tomando o lugar da relação e da conversação reais. As coisas que podemos estar deixando de aprender - complexidade, acuidade, paciência, sabedoria, intimidade - fazem diferença.

BILL KELLER é jornalista. ©The New York Times

Espíritos que pegam carona

Histórias de fantasmas que pegam carona em carros ou cavalos são comuns no imaginário popular. Mas o que acontece até hoje na Estrada do Cupim, em Campina Grande do Sul, desafia os céticos e provoca arrepios nas muitas pessoas que juram ter levado na garupa, caçamba ou banco de passageiro gente que apareceu repentinamente durante a viagem. E que desapareceu antes do fim da jornada, num piscar de olhos.
Alguém pode pensar que os caroneiros são sujeitos muito vivos que montam furtivamente nos cavalos e alcançam os carros quando eles diminuem a velocidade. Pois escute a história a seguir.
Moradores mais antigos da região se lembram do drama vivido por uma família inteira, os Basinski, no início dos anos 60. Dois irmãos, agricultores, homens adultos e trabalhadores, percorriam em dias diferentes o mesmo caminho: uma via viscinal, paralela à Estrada do Cupim, que hoje se apagou transformada em pasto.


Os dois passaram pela mesma situação aterrorizante. Os dois guardaram segredo até perto da fim da vida, temendo que fossem vistos como loucos ou bêbados pelos parentes e vizinhos. Mas cada um deles, tomados por uma doença implacável que definhava os músculos das pernas e braços, acabou confessando no leito de morte os pesadelos que se instalaram na consciência desde aquelas noites tenebrosas de meados do século passado.
Carlos, o caçula, mal tinha completado 18 anos quando assumiu o papel de buscar secos e molhados na sede do município. A volta das compras era tarde da noite e o caminho jamais lhe pareceu perigoso. Era apenas escuro e vibrante por causa do farfalhar dos galhos e assobios dos animais insones. Naquele dia 15 de junho de 1960, Carlos demorou mais para chegar à chácara. No alto do elevado, onde a rua de terra cruzava com a Estrada do Cupim, o cavalo começou a diminuir o passo. Na verdade, mais do que isso: parecia lutar para correr dali, mas dava a impressão que um enorme peso segurava o animal, como se cordas ou correntes o amarrassem ao solo.
Cansado, naquela escuridão, começou a açoitar o cavalo com impaciência. O animal gritou como se o pequeno chicote estivesse cravejado de espinhos. Carlos olhou para trás… e se arrependeu. Abriu a boca para berrar, mas a voz não saiu. Caiu, desmaiado, na relva. Horas depois, a família foi ao seu encontro, preocupada com a demora. Encontrou o jovem cavaleiro sentado no chão, trêmulo. E o cavalo, morto de exaustão.
Um ano depois, o primogênito Ismael já havia se acostumado com as viagens para compras. Embora nunca tivesse contado o que vira, Carlos se recusava a desafiar a escuridão daquelas passagens. Aos 30 anos, Ismael era o natural herdeiro da chácara, responsável por cuidar de tudo, até dos misteriosos melindres do caçula.

Ele nem percebeu o aniversário infame. Era 15 de junho de 1961. O vento cortava o campo e o inverno já havia se instalado em Campina Grande do Sul. O orvalho mal descongelou durante o dia e o frio da noite envolvia quem se arriscava a cavalgar.
Por volta das 8 da noite, o cavalo de Ismael parou. Exatamente no alto do aclive, bem no lugar em que Carlos viveu seu maior tormento. “Mas que diabo!”, praguejou o agricultor. Dessa vez, nem houve açoite. O animal chorava de dor e levantava as patas dianteiras, desesperado para fugir. Ismael virou o rosto corajosamente. E no meio da cerração começou a distinguir uma lustrosa placa de madeira marrom, com detalhes prateados que brilhavam ao escapar da névoa. Firmando os olhos, percebeu também uma cruz no tampo… o cavalo de Ismael estava puxando um caixão!
As pernas bambas e o pânico não foram suficientes para derrubar o cavaleiro. Ele saltou e colocou as mãos na grossa corda que se confundia com as ancas da sua condução. Pareciam porosas. Não teve coragem de tocar o féretro, que aos poucos sumia na escuridão. Mas queria olhar pela placa envidraçada na cabeceira. Aproximou-se cambaleante, tropeçou e acabou de joelhos, com as mãos na janela, encarando sem escolha o corpo que ali jazia.
O que viu naquele instante jamais saiu da sua cabeça, nem por um minuto. Deitado no caixão, com os olhos vidrados e secos, a boca retorcida, face pálida sob o vidro, estava Carlos, o irmão de Ismael.

* O texto é do Jornal União, de Campina Grande do Sul, edição da segunda semana de junho.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Redes sociais não inventaram o indivíduo


Esse é o resumo do artigo aceito no Congresso Mundial de Comunicação Iberoamericana, que será realizado em agosto na capital paulista. Lançado como LP em 1964, o disco de Coltrane é um impressionante indício de que a ação individual na circulação de mensagens já existia francamente no auge da mídia de massa. Ou seja, não foram as redes sociais que inventaram o indivíduo.


Contrabandos: ação dos atores individuais para a circulação

O artigo resulta do esforço de identificar estratégias discursivas específicas de religiosos em ambientes “inóspitos” proporcionados pela midiatização. Por “inóspito” leia-se “deslocamento”: locais da ambiência que não são programados ou convidativos para manifestações da religião.
A religião é particularmente sugestiva, nesse contexto, porque a solidez de cada campo e seus interesses conflitantes, representam, em primeiro lugar, resistência a alguns protocolos e ações da midiatização; em segundo lugar, oferecem, eles também, diversos tipos de influência que redesenham as “formas tecnológicas de vidas”.
Estudiosos latinos e norteamericanos, sobretudo, se ocupam de compreender impactos da midiatização na “transformação” das instituições religiosas. Mas a experiência de transmitir mensagens em outros ambientes parece ocorrer preferencialmente na forma de “contrabandos” individuais. Ou seja, não é um sistema que infere suas proposições em outros. Os campos não promovem intercâmbios relevantes porque sistemas não aceitam interferências discursivas radicais sem se transformarem em outra coisa. Trata-se de limite hermenêutico: se um conjunto de idéias “estrangeiro” contamina um sistema, ele só pode sofrer uma transformação de reconhecimento – caso contrário, a interferência foi tão descartável quanto inócua.
O estudo de caso apresentado envolve um disco de jazz, A Love Supreme, lançado em 1964, que conquistou espaço como objeto devocional – ou pró-devocional. John Coltrane, o músico responsável, gozava de posição privilegiada no restrito mercado do jazz nos anos 60 e era visto, graças à própria imprensa, como um indivíduo muito seriamente ligado a “questões espirituais”.
É objeto em movimento, pois constrói significados à medida que é usado ou interpretado ou rearranjado pelos indivíduos que se deparam com ele, escolhem, o consomem. No entanto, o que sugere ser realmente peculiar é o reconhecimento que, nesse e em outros casos, o papel do indivíduo supera qualquer generalização. Na verdade, o fato de focar nas estratégias do “usuário” (não autor ou consumidor) é mais uma questão de operação metodológica do que escuta das significações emergidas. A ideia é “rastrear” o movimento a partir das pistas que o usuário deixa nas suas estratégias de circulação.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Usar as palavras, quem diria, dá melhores empregos

Essa é para aqueles que aposentaram a língua como ferramenta privilegiada de trabalho.
Quem sabe escrever e, especialmente, tem senso de humor, pode se sair muito bem nesse mundo cada vez mais dominado, aí na superfície, por essa estética careta, pobremente publicitária e mau humorada.
A matéria é do New York Times e foi escrita por Sally Ryan.

GROUPON USA PALAVRA E COMÉDIA PARA VENDER

CHICAGO - Ou a Groupon está criando uma nova abordagem ao comércio que mudará o modo como comemos, compramos e interagimos com o mundo físico, ou é um sinal de que a mania da internet está, mais uma vez, saindo do controle. Ou ambos.
Essa empresa sediada em Chicago oferece descontos em produtos e serviços -um modelo empresarial que novatas da internet tentaram desenvolver. Mas a Groupon tem mais de US$ 1 bilhão em receitas anuais nos EUA e no exterior e cerca de 50 milhões de assinantes em 35 países. A novidade da Groupon? Nem tanto os negócios, quanto um ingrediente que é improvável e efêmero: palavras.
"As pessoas ficaram insensíveis aos elementos da publicidade que lidam com seus medos e com suas esperanças, que insultam sua inteligência com abordagens seguras e mornas da criatividade", diz Aaron With, editor-chefe da Groupon. "Nós misturamos negócios com arte e criamos nossa voz."
A Voz. Segundo a Groupon, é a ela que os assinantes respondem, tanto quanto ao negócio em si. A Groupon emprestou algumas ferramentas e alguns termos do jornalismo, aliviou a mão tradicionalmente pesada da publicidade, acrescentou um pouco de bom humor e atitude e casou o resultado com um negócio com desconto.
"Trinta por cento dos nossos assinantes ganham mais de US$ 100 mil por ano", diz With. "Eles não precisam de um desconto de US$ 20 em um restaurante." A companhia rejeita ser considerada uma agência de publicidade, responsável por promover pizza e sushi baratos para qualquer um que queira contratá-la. A esperança, em vez disso, é que seus usuários a vejam como um guia imparcial de uma cidade ou um bairro, um pouco como o caderno de fim de semana do jornal local.
Hoje, existem centenas de imitadores, alguns deles tentando solapar a original cobrando do comerciante menos do que a Groupon; a concorrente mais próxima da Groupon, Living Social, é apoiada pela Amazon, a gigante do varejo. "Não estamos nem um pouco preocupados que qualquer concorrente apareça e comece a escrever como nós", diz With. "Eles tentam, mas fracassam."
Mas a Groupon conseguiu comprar imitadoras no exterior, ajudando a construir uma rede global notável em tempo recorde. Quase todo mundo na equipe editorial da Groupon, de mais de 400 pessoas, tem menos de 30 anos. O próprio With tem 29 e nenhuma experiência em jornalismo ou marketing: trabalhava para uma organização sem fins lucrativos de Chicago e, mais importante, já tocou em uma banda com Andrew Mason, o executivo-chefe da Groupon.
"Muitos redatores profissionais se candidatam aqui. Eu já tive interessados da Rolling Stone, do Wall Street Journal", disse Keith Griffith, diretor de pessoal. "Mas é difícil que eles façam o que nós realmente procuramos. É mais fácil ensinar as pessoas do que desensiná-las."
Uma das perguntas que a Groupon faz aos candidatos a funcionários:
Qual é a maneira mais interessante de descrever um candelabro de 2.500 quilos?
A. Um espetáculo à parte.
B. Mais brilhante que uma árvore de Natal estudiosa.
C. Uma armadilha mortal.
D. Realmente grande e brilhante.
Não muita gente passa no teste -a resposta certa é B- ou se sai bem na redação de amostra.
Outro motivo pelo qual o emprego atrai mais jovens é porque o salário de novos redatores não tem nada de extravagante -cerca de US$ 37 mil por ano. Whitney Holmes, uma editora sênior de 27 anos que é poeta e diplomada em belas artes pela Universidade do Alabama, é encarregada de ensinar a Voz aos recrutas. "Inspiração é um monte de besteira", diz Holmes. "Você pode ensinar alguém a juntar coisas que são engraçadas."
Dirigindo-se a uma nova safra de redatores em uma sessão de treinamento, ela busca primeiro tranquilizá-los. "Conseguir a Voz da Groupon não tem a ver com ser inerentemente engraçado. Se fosse assim, 93% de nossos redatores não teriam emprego", ela diz.
Os redatores riem sem graça. Holmes os conduz em um giro rápido sobre a história e a teoria do humor. Um exemplo de utilização bem sucedida da Voz da Groupon para um serviço de ioga e massagem: "O mundo moderno de hoje, com sua pletora de países, panóplia de vias aquáticas e leis em constante mudança sobre o que é e não é fraude postal, é tão confuso quanto estressante. Tenha uma definição clara de relaxamento com a Groupon hoje."
Para um dentista: "A fada do dente é uma fetichista invasora especializada em comércio de marfim no mercado negro e precisa ser detida. A Groupon ajuda a manter dentes nas bocas e fora das mãos de fantasmas alados maníacos."
Holmes diz: "Toda piada tem uma proposta e uma recompensa. Se a proposta é confusa, a recompensa não chega".
Infelizmente, às vezes, a recompensa pela empresa que oferece o serviço desaparece na confusão de palavras. Restaurantes foram inundados por Groupons bem-sucedidos em que são obrigados a vender muitas refeições por um preço baixo demais. Além disso, diante da velocidade de suas aquisições no exterior, a Groupon estabeleceu um controle de qualidade limitado sobre os negócios fechados com as empresas locais.
Ainda assim, o Google tentou comprar a Groupon em dezembro por supostos US$ 6 bilhões. Era uma quantia enorme para uma empresa de dois anos, mas foi um negócio que a Groupon não gostou.
Em vez disso, recebeu dinheiro para se expandir -US$ 950 milhões- através de mais uma rodada de financiamento de capital de risco.
A Groupon gaba-se de um processo editorial demorado. Depois que um texto está pronto, ele vai para verificação de fatos. Depois vai para o editor da Voz, Ben Kobold, que, na tradição de todos os editores, olha para o texto, suspira, se encolhe em sua cadeira e, muitas vezes, passa a reescrever a maior parte dele.
Então, um improviso vem de um dos quatro redatores de humor do Groupon. Quanto mais você conseguir rir com a Groupon, mais você gostará dela. Ou é isso que a companhia espera.
"Com a chegada da temporada de concertos de piano, fingir a própria morte está ficando cada vez mais popular", começava um improviso recente. Cartas iradas se seguiram. Cullen Crawford, o redator, balança a cabeça. "Só porque tinha a palavra 'morte'?", explica. Parece que a Groupon preencherá os maiores sonhos de seus investidores e primeiros funcionários abrindo seu capital no ano que vem. A oferta poderá avaliar a empresa em US$ 25 bilhões, o que cobriria a estreia do Google em 2004 como a mais rica da internet.
Talvez em retrospectiva, essa soma pareça um grande negócio, como foi o do Google. Ou talvez seja a melhor piada da Groupon em todos os tempos.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Lawrence Wright, jornalista-rapsodo.

Lawrence Wright escreveu o ótimo livro-reportagem O vulto das torres, premiado com o Pulitzer e lançado no Brasil pela Companhia das Letras. É sobre as origens da Al-Qaeda e qualquer um que estude bom jornalismo deveria ler com cuidado.

Pois a Folha publicou hoje uma peça teatral (!) escrita, dirigida e interpretada pelo próprio Wright sobre a convivência dolorosa entre judeus e palestinos. E começou a carreira do espetáculo em Tel Aviv, a poucos quilômetros da Faixa de Gaza.

Esse cruzamento precisa ser melhor refletido nas faculdades de jornalismo, em geral lotadas de preconceito contra formatos que escapem das fórmulas consagradas pela profissão mais ou menos desde que inventaram o telégrafo.

O que queremos quando noticiamos coisas? Não é uma resposta simples e me parece evidente que qualquer alternativa "decisiva" (informar! criar espírito crítico! ser a voz da sociedade!) não consegue ser contemplada com quatro anos de pirâmidade invertida, lead, "passagens"e deslumbre por "cases" de assessoria de imprensa.

Lawrence Wright estreia peça em Israel

Jornalista americano apresentou monólogo sobre conflito entre palestinos e israelenses nos palcos de Tel Aviv

"The Human Scale" tem como ponto de partida a história do soldado Gilad Shalit, refém do Hamas desde 2006

Marcelo Ninio
ENVIADO ESPECIAL A TEL AVIV

Transformar uma reportagem sobre o conflito palestino-israelense em espetáculo teatral é um desafio e tanto, mesmo para um jornalista habituado a mergulhar nos enredos mais intrincados do Oriente Médio, como o americano Lawrence Wright.
Mas ao transportar a obra de Nova York até Tel Aviv e confrontá-la com espectadores que compõem o elenco da narrativa, Wright esticou um pouco mais os limites entre teatro e atualidade.
O resultado pegou o autor de surpresa nas quatro apresentações do monólogo "The Human Scale" (a balança humana) que fez em Tel Aviv.
"Fiquei muito surpreso com a reação calorosa e também com a gratidão demonstrada pelas pessoas", disse Wright. "Como se fosse necessário um estrangeiro para colocar as coisas em perspectiva e contexto."
Menos de 70 km separam Tel Aviv da faixa de Gaza. Entre a mais cosmopolita cidade de Israel e o isolado território palestino, contudo, há um abismo conceitual criado por décadas de demonização. Com seu espetáculo, Wright tenta criar uma ponte entre esses dois mundos. Em 90 minutos, Wright conduz o espectador pelos labirintos da guerra de narrativas entre israelenses e palestinos, com o auxílio de imagens do conflito que se alternam em telões superpostos no fundo do palco. O ponto de partida é o soldado israelense Gilad Shalit, mantido refém desde 2006, quando foi capturado pelo grupo palestino Hamas e levado para a faixa de Gaza. Em troca, o grupo islâmico exige a libertação de mais de mil prisioneiros palestinos em poder de Israel. O número desperta em Wright a questão que norteia o monólogo: quanto vale uma vida? "Como eles chegaram a esse número? Como se mede o valor desse menino tímido?", pergunta Wright no início do monólogo. "Ele é mais valioso por ser judeu?"
A origem do espetáculo é uma reportagem escrita pelo jornalista em 2009 para a revista "New Yorker" sobre a faixa de Gaza. Com fartura de detalhes, ele descreve o clima de desumanização mútua que predomina por lá.
Esta é a segunda investida de Wright no teatro. Ele já havia levado aos palcos um monólogo baseado nos dilemas morais que enfrentou na pesquisa para o livro "O Vulto das Torres", considerado por muitos a obra definitiva sobre as origens dos atentados do 11 de Setembro.
Misto de peça, seminário e espetáculo interativo, o monólogo apresentado em Tel Aviv desafia o poder de definição do próprio autor.
Seja qual for o rótulo, afirma Wright, trata-se de um gênero com raros exemplos."Um dos poucos é "Via Dolorosa", de David Hare, sobre suas viagens a Jerusalém. Foi uma das minhas referências", diz. Para ele, o teatro dá outra dimensão a seu trabalho. "O palco é a relação mais íntima que um autor pode ter com seus leitores.
Embora tenha atraído um público bem mais aberto a aceitar a narrativa palestina que a média dos israelenses, a interação gerou atritos no lotado teatro de Tel Aviv. "Para um estrangeiro é mais fácil analisar o conflito", diz a educadora Orna Abiri, 39. "Minha perspectiva é diferente. Eu não tenho outro país." Wright tem planos de apresentar o monólogo em Gaza, mas eles ainda esperam a autorização do Hamas.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Experiências de jornalismo policial em Campina Grande do Sul


Com a paciência e modéstia que a edição de um impresso semanal do interior requer, o Jornal União, com sede em Campina Grande do Sul, tem experimentado alguns "desvios de linguagem", especialmente na página policial.


Na primeira matéria que reproduzo, fruto da última edição, há o uso de versos de "Construção", de Chico Buarque, para noticiar a morte de um pedreiro. Nas outras, algo sobre os limites da linguagem popular, gírias e ironias.

O esforço tem rendido bem: o União aumentou sua tiragem e circulação e as matérias ficam na boca da comunidade a semana toda, do prefeito ao agricultor recém-alfabetizado (e não é figura de linguagem: a nova coluna social do jornal publicou, na semana passada, a foto de uma senhora idosa, que acabara de aprender a ler, curtindo as matérias).

Pedreiro executado: tropeçou no ar e agonizou na frente dos filhos

Na noite do dia 22, um domingo, no limite norte de Campina Grande do Sul, o pedreiro Ricardo Alexandre Alves jantou feijão com arroz como se fosse um príncipe. Não demorou, no entanto, para que a lâmpada tremeluzente do barraco revelasse o fim da ilusão de paz e tranquilidade. Os bandidos que entraram na sua casa não esperaram a segunda-feira para que o trabalhador morresse, quem sabe, despencando de uma construção.
Vários disparos nas costas de Ricardo, que tentava fugir e tropeçou no batente da janela da casa como um pacote bêbado. A esposa e seus quatro filhos, de quem não teve tempo de se despedir, assistiram à execução.
Ninguém dali, nem a irmã da vítima, entendeu o crime. Lúcia Alves lamentou: “Ele nunca mexeu com nada errado. Pai de família, trabalhador, agora os quatro filhos vão ficar sem o pai”. Dizem que ele teria sido confundido com o irmão, famoso na vizinhança por se envolver com o que não presta.
Mas segundo o delegado Gerson Machado, Ricardo tinha envolvimento com o tráfico e esse seria o possível motivo de seu assassinato. A delegacia de Polícia Civil de Campina Grande do Sul está investigando o caso. Enquanto isso, a comunidade espera a paz derradeira que enfim vai lhes redimir.

Morto a facadas, queimado e mal enterrado
Os dois assassinos de Reginaldo Bandeira, 24 anos, foram presos pelos agentes da delegacia de Campina Grande do Sul pouco tempo depois da obra inesquecível que aprontaram: eles mataram Bandeira com uma facada no pescoço, queimaram o corpo e ocultaram em uma cova rasa ali pelo km 27 da BR 116, nas imediações da Igreja Visão Missionária, na Barragem.
Por que fizeram isso? Um dos assassinos, Ilson Rodrigues da Silva, 18 anos, revelou que cometeu o crime porque teria sido ameaçado de morte por Reginaldo, com quem tinha uma rixa antiga. Ele chamou Rosevaldo Pereira, 25, para ajudar no serviço. O parceiro tem experiência no ramo: cumpriu pena por homicídio no presídio de Piraquara, de onde saiu em 2009.
Os dois foram autuados pelos crimes de ocultação de cadáver, pelo qual podem cumprir de um a três anos de prisão, e homicídio, cuja pena é de 12 a 30 anos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Quem é pior: capitão Bolsonaro ou pastor Feliciano?

Os deputados Jair Bolsonaro (PP) e Marco Feliciano (PSC) se tornaram maiores do que são nos últimos dias por conta de manifestações esplendidamente equivocadas. As frases racistas e homofóbicas que lhes deram notoriedade são fruto de maldade, ignorância ou ingenuidade. O fato é que invadiram o noticiário, as redes sociais, as conversas cotidianas com uma força que suas trajetórias políticas jamais foram capazes de proporcionar.

Mas cabe aqui refletir se eles provocaram algum mal duradouro, algum tipo de “movimento” reacionário que coloque em risco ainda mais os valores democráticos ou a saúde física e mental daqueles que o ex-militar e o evangélico parecem desprezar tanto.

O que restou da entrevista do deputado pepista ao CQC? Um site de grupo ligado aos gays foi atacado por hackers pró-Bolsonaro. Deixaram mensagens cuja criatividade e força retórica são tão irrelevantes que os administradores do espaço sequer se esforçaram para apagar. As frases homofóbicas ficaram lá, como evidência, figurações da sua natureza bufa e inofensiva.

Ora, com ou sem frases homofóbicas arranhando um portal frequentado majoritariamente por simpatizantes, gays são perseguidos, humilhados e assassinados todos os dias no país. As palavras confusas de Bolsonaro são mero ato falho de uma sociedade cheia de sapos entalados na garganta.
A instituição que dá lastro ao deputado carioca é o Exército, em nome do qual Jair Bolsonaro costuma conclamar os “valores sadios” da família, da ordem, da Lei e de outras abstrações facilmente confundidas com quaisquer idéias “bem intencionadas” que o leitor, ouvinte, espectador e eleitor possam ter.

Mas quem tem medo do Exército hoje em dia? E quando digo “medo”, falo daquela sensação que ainda vibra pelo corpo dos que passaram acordados pelos anos de ditadura. Pelo contrário, a atual juventude até nutre alguma simpatia pelas Forças Armadas – cuja imagem se liga às oportunidades de carreira e educação para jovens e a ações populares, como as pacificações nos morros cariocas ou o esforço no Haiti, que nada mais tem a ver com repressão sistemática a  “ideologias”. Talvez porque, felizmente, ninguém mais queira morrer por essas bobagens.

Ou seja, ninguém saudável sairá por aí dizendo: “Nem vou falar nada sobre o Bolsonaro porque o cara é ligado aos militares. Vai que me sequestram, torturam e somem comigo no Araguaia!” 
Provavelmente, concordando ou não com o deputado, a maioria dos militares instruídos do país pensam a mesma coisa que eu e você: “Esse camarada tem um parafuso a menos”.

É por isso que considero a intervenção do pastor Marcos Feliciano muito mais complexa e, porque não dizer, perigosa. Em primeiro lugar, Feliciano é parte de uma sólida e fervorosa bancada evangélica, que naturalmente protege seus pares e luta por um objetivo muito claro: tomar culturalmente o país.

Falando assim parece uma paranóia, mas é preciso se refletir sobre os limites do jogo democrático e na forma desleal e desproporcional que os interesses (legítimos) de uma parte da população estão lentamente se sobrepondo aos interesses dos demais cidadãos.

Pastores como Feliciano têm oportunidade de comício todos os dias do ano, em palcos humildes ou luxuosos financiados com escandolosa isenção de impostos e transmitido por uma cadeia de veículos de comunicação cada vez mais presente e invasiva – muitas vezes, inclusive, conquistada de forma ilegal, como mostraram reportagens da Folha de S. Paulo na semana passada. Com o perdão do trocadilho, Feliciano tem eleitores fiéis que, sem nem supor que estão trabalhando de graça como cabos eleitorais à revelia de qualquer garantia trabalhista, espalham o “plano de governo” comum à maioria dos pastores evangélicos envolvidos com política.

O crescimento das bancadas evangélicas nos estados e no Congresso é, mesmo que lamentemos, mérito dos grupos que vêm planejando, organizando, trabalhando firme para construir tal representatividade. “Evangélicos” são, na prática, um partido que o PSD do Kassab jamais será. E isso faz parte do jogo democrático. O primeiro problema é a desigualdade de condições: que outro setor da sociedade tem o caminho tão facilitado?

O segundo problema é o tabu: o medo, a “prudência” de se dizer qualquer coisa sobre posicionamentos políticos que nos cheguem sob o rótulo de “religiosos”.

Talvez porque, no fundo, a maior parte dos jornalistas do país estude muito pouco e esse pouco se torne perigoso: encantados com um discurso politicamente correto de “respeitar as diferenças” e vítimas de uma cultura de auto-ajuda e “marketing do bem”, observadores com espaço na mídia se rendem a um argumento pró-religioso fácil, que neutraliza e estereotipa qualquer crítica, sobretudo a ações cristãs.  Nos últimos anos, uma leitura rasa de pesquisas ligadas aos Estudos Culturais financiou uma superstição que impede intelectuais de se oporem a simbologias populares, mesmo que estas representem a humilhação da mulher, do negro, do gay… tolerar o ato de cortar com caco de vidro o clitóris de crianças em nome da religião ou permitir que jovens se imolem ou se crucifiquem se tornou “respeito à diferença”. Criticar virou “imperialismo” ou “alienação”.

É preciso se admitir que, pelo menos, Jair Bolsonaro não se vale de desculpas metafísicas para propagar seu ponto de vista defunto. Sua vinculação com Deus é vaga e só faz parte do pacote de signos conservadores que anima o discurso. Já Marcos Feliciano levanta a Bíblia e se diz amparado: Noé foi pego pelado e bêbado pelo filho Cam. A maldição etílica cai sobre seus descendentes. “Não sou eu quem está dizendo”, brada Marcos Feliciano, “é a Bíblia! Africanos são filhos malditos de um bêbado amedrontado com a sexualidade. Para piorar, ele emenda: mas calma, basta aceitar Jesus que a maldição vai embora.

Sejamos francos: existe armadilha discursiva mais canalha do que essa?

O que podemos esperar disso tudo é que instituições religiosas sérias e o próprio Exército pelo menos desautorizem publicamente esses aloprados que uma hora ou outra vão queimar livros, montar milícias ou transformar os pecados pessoais (ainda que gula ou amor) em crimes públicos, puníveis com açoites e escárnio.