segunda-feira, 28 de março de 2011

Se eu fosse cineasta e se fosse o máximo, queria ser dono desses aqui - parte 1


Os filmes que você queria ter dirigido não interessam a ninguém, a não ser ao seu psiquiatra ou par romântico. Uma lista de filmes diz o quanto você é esperto, cult ou abobado ou diz que tipo de problema resolve com escapismo.
A não ser, num caso altamente improvável e tolo, que você seja um cineasta consagrado e está tentando convencer um produtor a fazer uma refilmagem (se este for o seu caso e se quiser um conselho, não faça! Não mexa nisso!).
Mas como vi um filme de Arthur Penn hoje, um western sensacional com o Paul Newmann, fiquei pensando como satisfatório deve ser olhar para um filho seu, um filme, e curtir o que ele se tornou - muitas vezes APESAR de você.

Como "Corpos Celestes", do Fernando Severo, está se saindo bem por aí, todo mundo comentando e sorrindo, confesso que invejo a felicidade que o camarada está sentindo.
Fiz essa lista de uns doze ou treze e digo rapidamente porque o título me envolve tanto e o motivo pelo qual, se um gênio aparecesse e fosse especializado unicamente em cinema (eu não iria gastar um dos 3 quaisquer pedidos com isso, claro, pois um aquecedor a gás digital é prioridade para mim nesse momento), eu escolheria ter realizado aqueles planos, costurado aqueles roteiros, xingado aqueles atores.
Percebi que na lista espontânea que fiz, e que só obedece ao critério de não repetir cineastas (o que tira Os Pássaros como se tirasse meu próprio coração), só tem filme em língua inglesa. Deve ser porque os prefiro, em geral, e seria uma forumssocialisse enfiar um iraniano para parecer cabeça. De qualquer modo, acho que vou lembrar de um "estrangeiro", além do Bergman (que realmente adoro, mas não ando no clima) e oportunamente edito esse post, como bem cabe nesse fim dos tempos para a Palavra Sacramentada de Deus.

Em ordem alfabética, meramente, e daquele jeito ingênuo que conta as vogais.

A noiva de Frankenstein (The bride of Frankenstein. James Whale, 1935)
Acho que vi todos os poucos filmes de James Whale e todos são excelentes. A Noiva de Frankenstein é o contrabando por definição. Parece que é um filme de horror, mas tem raios saindo de toda a parte, inclusive do cabelo daquela que poderíamos chamar de "uns pedaços de mulher!" Há um surrealismo que caberia em Simbad, mas esse pessimismo, essa experiência com a rejeição... se existe o tal de filme de autor, sou bem mais Whale do que todos os franceses da nouvelle vague.


Agora seremos felizes (Meet me in St. Louis. Minelli, 1944).
Como todo musical hollywoodiano, é um filme sobre estar apaixonado. Mas não é bem a paixão de Judy Garland pelo rapaz na porta ao lado que interessa. É a paixão de Minelli, que mesmo sendo gay parece ter derretido seu coração pela genial protagonista. Cada plano é uma moldura, já disse Scorsese, e se tivéssemos tão somente a Trolley Song, já superaria toda a filmografia do Kubrick.


Apertem os cintos, o piloto sumiu (Airplane! Zucker, Abraham & Zucker, 1980)
Eu lembro da primeira vez que vi. Foi num Supercine, no meio dos anos 80, com minha família inteira. Todos riram até chorar. Sabe, de passar mal mesmo. E isso é lindo, porque até hoje fico surpreso com a reação dos meus pais, caretas naquela época com esse tipo de humor. Minha mãe levantou do sofá, com o rosto vermelho, se afogando de rir com a cena em que a mulher do piloto reserva revela que está dormindo com um cavalo. 80% da minha vida quis escrever humor e posso dizer que pouca coisa supera o sublime mau gosto de Airplane! O fato de estar envelhecido o torna mais especial. Talvez eu não ria mais tanto assim das piadas absurdas, mas a fotografia, o figurino, a música... um prazer indiscutível.

Blade runner (Ridley Scott, 1982).

Um amigo meu lá de Ponta Grossa, o Jordão, casou ao som da trilha que Vangelis compôs para Blade Runner. Isso soa meio cafona no momento (cerimônias de casamento e cafonice são praticamente sinônimos, enfim), mas tem algo infinito, misterioso e paralisante naqueles acordes que fazem do trabalho um dos mais perfeitos para cinema. E eu entendo perfeitamente a relação entre um começo desafiador, amoroso, de um casamento, e o futuro chocante... e atraente! As chamas subindo pelos prédios no início, as notas sumindo em bemol, profundo desalento, com o rosto de Harrison Ford ofuscado pelas luzes da metrópole. A fala final de Rutger Hauer, a sexualidade triste de Sean Young, o final mais ambíguo e discutido da cinematografia. Deckard é um replicante? Um bom motivo para manter o interesse na monótona conversa sobre pós-modernidade? Blade Runner.

Cantando na chuva (Singing in the rain. Gene Kelly, Stanley Donen, 1956)

Um clássico sobre felicidade e o antídoto para o tipo de coisa que não consigo gostar: filmes cujo objetivo é provocar suicídio. Esses "cults", adorados pelas pessoas que se sentem críticas quanto à "alienação" dos finais felizes, cheios da pretensão mesquinha de serem portadores da "realidade" dolorosa da vida. Cantando na chuva é puro delírio e fantasia, costurada como acidente, quase sem canções originais, dirigida, na prática, pelo ator. Sem pretensão nenhuma, mas incandescente de talento, esforço e senso prático, é um filme cuja sombra torna ainda mais medíocres esforços como Blue Valentine, Dancing in the dark e os filmes do Todd Solondz.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Evangélicos odeiam Jesus: pesquisa mostra a contradição

O artigo é de Phil Zuckerkman, do huffingtonpost.com, e de Dan Cadhy, professor assistente de História na Universidade Estadual da Califórnia.
Traduzi do richarddawkins.net, onde você encontra o resto do artigo - na verdade, fiquei com preguiça de traduzir até o fim, mas vale a pena ler mesmo o original, protegido dessa monstruosidade que é a minha interpretação.

Por que os evangélicos odeiam Jesus?


Os resultados de uma pesquisa recente publicada pelo Pew Forum on Religion and Public Life revelaram algo que os cientistas sociais já sabiam faz tempo: evangélicos brancos formam o grupo menos simpático a políticas públicas que refletiriam atualmente os ensinamentos de Jesus.
Isto é, talvez, uma das mais estranhas e desconcertantes ironias na cultura americana contemporânea. Cristãos evangélicos, que mais agressivamente proclamam ter uma relação pessoal com Cristo, que mais confiantemente declaram sua crença de que a Bíblia é a palavra indiscutível de Deus, que vão à igreja regularmente, oram diariamente, ouvem música cristã e colocam Deus e seu Único Filho no centro de suas vidas, são simultaneamente as pessoas que mais rejeitam seus ensinamentos e desprezam sua mensagem fundamental.
Sem nenhuma ambiguidade, Jesus pregava perdão e misericórdia. Essas são, supostamente, as virtudes essenciais da fé cristã. E, apesar disso, evangélicos são os maiores apoiadores da pena de morte, sentenças draconianas, punição ao invés de reabilitação e o uso governamental da tortura.
Jesus exortava os seres humanos ao amor, paz e não-violência. E, mesmo assim, evangélicos formam o grupo norteamericano que mais apoia leis que facilitem o uso de armas, pequena ou nenhuma regulação do porte de pistoloas automáticas e semiautomáticas, sem mencionar a invasão militar violenta de vários países ao redor do mundo.
Jesus deixava muito claro que a busca pela riqueza era inimiga do Reino de Deus, e que os ricos seriam condenados, e que ser um seguidor Dele significava dar seu único dinheiro para os pobres. E os evangélicos são os maiores apoiadores do corporativismo e excessos do capitalismo, e também os maiores opositores de ajuda institucional para as nações pobres – especialmente crianças pobres.
Eles odeiam qualquer coisa que soe como “socialismo”, embora isso seja essencialmente o que seu Salvador pregava. Eles desprezam programas de distribuição de comida, subsídios para escolas, hospitais e treinamento para o trabalho – qualquer coisa que represente efetivamente ajudar quem precisa. Ao mesmo tempo, ajudar quem precisa era exatamente o que Jesus solicitava aos seres humanos. Em resumo, evangélicos são o segmento dos Estados Unidos que é mais pró-militar, pró-armamento, pró-corporativo, enquanto simultaneamente clama ser o mais ardente amante do Príncipe da Paz.

Qual é o problema?

cont.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Discurso obscuro de formatura

Recupero o blog, meses depois da última postagem, como ferramenta de apoio a eventuais mensagens longas demais do twitter. Aderi à ferramenta depois de teimar muito: ainda sou MUITO antipático a redes sociais, especialmente Orkut e Facebook, mas é a vida.

Aqui eu reproduzo o discurso de formatura que supostamente pertence à turma 2010 de Medicina da PUC PR.
Ressalto que, embora a PUC tenha evidente vocação confessional, não há motivos para desconfiar da autoridade intelectual que a sustenta: não tenho dúvidas de que gestores e professores sabem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Também não quero provocar simplesmente as pessoas que se emocionam com essa confusão - respeito aqueles que tratam religião como providência superior da existência, que são coerentes em relação às supostas profundidades que animam suas ações e discursos. Mesmo que não concorde.
Mas eu simplesmente não confio em um médico que a) tem experiência estética tão simplória que chegamos a duvidar de sua inteligência; b) que realmente acredita que "Deus é o médico dos médicos".
Mesmo que se trate de uma metáfora, de um recurso de estilo, a mistura entre os campos não ajuda nada quem é sério na ciência ou na religião.
Não estamos aqui falando da dona de casa classe média que alivia o tédio da sua existência lendo Comer, Rezar e Amar, livros "psicografados" e outras formas de auto-ajuda fast-food, nem de adolescentes que pulam de Crepúsculo para Augusto Cury. Estamos falando do que antigamente era chamado, despudoradamente, de "elite intelectual" da sociedade: médicos, cuja importância para as demais pessoas parecia exigir uma formação mais que técnica.
É improvável mas possível que um médico bem-formado saia por aí fazendo pregação religiosa. Assustador mesmo é que faça esse tipo de exortação barata e cheia de trocadilhos publicitários. Enfim, dependendo que quem você for, vai copiar e mandar por email para uma porção de colegas de churrasco com o título "Lindo!" Recebi por correio eletrônico e é esse aí.



Mensagem lida na formatura do Curso de Medicina da PUC-PR 2010.
Boa noite a todos!
Hoje estou aqui para prestar uma homenagem ao primeiro, maior e melhor médico da história da humanidade!
Deus é esse médico, o médico dos médicos, e o mais excelente conhecedor do corpo humano. Todas as células e tecidos, órgãos e sistemas, foram arquitetados     por Ele, e Ele entende e conhece a sua criação melhor do que todos.
Que médico mais excelente poderia existir?
Deus é o primeiro cirurgião da história. A primeira operação? Umatoracoplastia, quando Deus retirou uma das costelas de Adão e dela formou a mulher.
Ele também é o primeiro Anestesista, porque antes de retirar aquela costela fezum profundo sono cair sobre o homem.
Deus é o melhor Obstetra especialista em fertilização que já existiu! Pois concedeu filhos a Sara, uma mulher que além de estéril, já estava na menopausa havia     muito tempo!
       Jesus, o filho de Deus, que com Ele é um só, é o primeiro pediatra da história, pois disse: “Deixem vir a mim as crianças, porque delas é o reino de Deus!”
Ele também é o maior reumatologista, pois curou um homem que tinha uma mão ressequida, ou, tecnicamente uma osteoartrite das articulações interfalangeanas.
Jesus é o primeiro oftalmologista, relatou em Jerusalém, o primeiro caso de cura em dois cegos de nascença.
Ele também é o primeiro emergencista a realizar, literalmente, uma ressuscitação cardio-pulmonar bem sucedida, quando usou como desfibrilador as suas palavras ao dizer: “Lázaro, vem para fora!”, e pelo poder delas, ressuscitou seu amigo que já havia falecido havia 4 dias.
Ele é o melhor otorrinolaringologista, pois devolveu a audição a um surdo. Seu tratamento?  O poder de seu amor.
Jesus também é o maior psiquiatra da história, há mais de 2 mil anos curou um jovem com graves distúrbios do pensamento e do comportamento!
Deus também  é o melhor ortopedista que já existiu, pois juntou um monte de ossos secos em novas articulações e deles fez um grande exército de homens. Sem contar quando ele disse a um homem coxo: “Levanta, toma a tua maca e anda!”, e o homem andou! O tratamento ortopédico de quadril mais efetivo já relatado na história!
A primeira evidência científica sobre a hanseníase está na Bíblia! E Jesus é odermatologista mais sábio da história, pois curou instantaneamente 10 homens que sofriam desta doença.
Ele também é o primeiro hematologista, pois com apenas um toque curou a coagulopatia de uma mulher que sofria de hemorragia havia mais de 12 anos e que tinha gastado todo o seu dinheiro com outros médicos em tratamentos sem sucesso.
Jesus é ainda, o maior doador de sangue do mundo. Seu tipo sanguíneo? O negativo, ou, doador universal, pois nesta transfusão, Ele, ofereceu o seu próprio sangue, o sangue de um homem sem pecado algum, por todas as pessoas que tinham sobre si a condenação de seus erros, e assim, através da sua morte na cruz e de sua ressurreição, deu a todos os que o recebem, o poder de se tornarem filhos de Deus! E para ter este grande presente, que é a salvação, não é necessário FAZER nada, apenas crer e receber!
O bom médico é aquele que dá a sua vida pelos seus pacientes!  Ele fez isso por nós!
Ele é um médico que não cobra pelos seus serviços, porque o presente GRATUITO de Deus é a vida eterna!
No seu consultório não há filas, não é necessário marcar consulta e nem esperar para ser atendido, pelo contrário, Ele já está à porta e bate, e aquele que abrir a seu coração para Ele, Ele entrará e fará uma grande festa! Não é necessário ter plano de saúde ou convênio, basta você querer e pedir! O tratamento que ele oferece é mais do que a cura de uma doença física, é uma vida de paz e alegria aqui na terra e mais uma eternidade inteira ao seu lado no céu!
O médico dos médicos está convidando você hoje para se tornar um paciente dele, e receber esta salvação e constatar que o tratamento que Ele oferece é exatamente o que você precisa para viver!
Ele é o único caminho, a verdade e a vida. Ninguém pode ir até Deus a não ser por Ele.
Seu nome é Jesus.
         A este médico seja hoje o nosso aplauso e a nossa sincera gratidão!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não, você não tem o direito de ser "contra os gays"

Na barrafunda que se tornou o debate eleitoral desse segundo turno, as cartadas mais retrógradas envolveram os homossexuais brasileiros. Se já não bastasse a cretinice de reduzir o problema do aborto ao interesse das medievais posições de alguns grupos religiosos, os candidatos resolveram atacar questões de gênero.
Primeiro Dilma assina um documento dizendo ser antipática ao casamento gay. Tolerável para qualquer segmento religioso legitimamente representado na sociedade. Vergonhoso para quem se pretende chefe de estado, líder de todos os brasileiros - inclusive (e principalmente, no caso de uma candidata suportada por discursos progressistas) os gays.
Mas o pior mesmo foi Serra dizer que vai "vetar", caso eleito, a lei que considera crime a homofobia.
A demagogia tucana diz que a lei acaba criminalizando quem tem posições religiosas sobre o assunto e dá a coisa por encerrada.
Ora, argumento semelhante pode ser aplicado para outras práticas religiosas, felizmente das quais estamos livres. Por exemplo, não podemos condenar os rituais que consistem em cortar o clitóris de crianças,como ocorre em alguns lugares do Afeganistão. Apedrejar até a morte as mulheres infiéis é outra recorrência em nome de Deus.
Os fanáticos dirão que o cristianismo não faz qualquer uma dessas coisas, o que reduz a liberdade religiosa aos caprichos dos políticos cristãos que conduzem os interesses desse ramo religioso num país como o Brasil. Os relativistas dirão que há uma distância muito grande em condenar os gays e mandar castrá-los ou apedrejá-los.
Tamanha cegueira se dá por dois motivos principais: crueldade e ignorância. A primeira porque odiar faz parte da militância. Você só é "desse" grupo porque não é "daquele". A identidade cristã, como qualquer outra, se vale dos contrastes. "Você é gay?" e a resposta: "Não, pois sou de Jesus". O caminho do conflito institucionalmente reconhecido é o do linchamento, moral e prático.
A segunda é que alguns "intelectuais" decoraram umas frases feitas politicamente corretas sobre o direito à fé, absolutizando qualquer escolha religiosa como legítima. E isso é falta de estudar, no mínimo. O Estado não é ateu, sem dúvida, mas não pode se submeter a lógicas irracionais e excludentes só porque as pessoas tem o direito de rezar, conversar com gente morta ou esperar Jesus voltar cavalgando no Pégasus com o mjelgornin na mão.
Sendo que a tradição machista que pauta boa parte das religiões, inclusive segmentos relevantes do cristianismo, referendada por umas três passagens obscuras da Bíblia, diz que ser gay é errado, devemos tolerar que os cristãos sejam intolerantes com o homossexualismo?
Claro que não.
Homofobia é crime.
Assim como racismo. Houve um tempo que a maior parte das religiões ocidentais tinha certeza que o negro não era merecedor de alma. Podemos achar dezenas de trechos bíblicos que, interpretados do jeito que o cliente quiser, abonam atitudes racistas (até a idéia de que há um "povo escolhido").
Qual é a solução? Ou a religião muda de idéia ou é repreendida (nesse assunto, que fique bem claro). Se ela não muda de idéia, é porque se considera maior que o estado, maior que a civilização.
Então é inimiga da democracia.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Problema dos cristãos aborta debate político

Serra e Dilma têm o mesmo posicionamento sobre o aborto. É provável, inclusive, que José Serra, tendo ocupado a cadeira de Ministro da Saúde, seja ainda mais rigoroso sobre o assunto do que sua companheira/adversária no pleito presidencial. Sabe que é uma questão urgente de saúde pública.

Na verdade, tanto faz o que um e outro pensa, uma vez que a) eles não concorrem a cargos legislativos e o movimento contra a legalização de determinadas situações de aborto já está sob controle de uma bancada evangélica cada vez mais forte, além de sujeita à covardia política e intelectual da maioria dos senadores e deputados, incapaz de enfrentar o que consideram ser "a opinião pública"; b) a única questão em jogo é o uso de seus posições particulares como estratégia de marketing político, o que não se confunde com política, propriamente dita.

O problema é que, mais uma vez, há um empobrecimento da agenda política. Pode até ser que uma questão menor (fundamental, mas paralela) da realidade nacional decida a eleição mais importante do país.
Essa é, pelo menos e desastrosamente, uma oportunidade de verificar in loco a promiscuidade entre religião e estado, atravessando o polianismo de que a simples menção constituinte assegura a laicidade de nossas instituições.

A prova de que isso acontece está na forma como, astutamente, o PSDB promoveu uma cola entre a questão do aborto e a candidata petista, e ao mesmo tempo conseguiu retirar o tema da agenda de seu proponente. Por outro lado, agora Dilma corre atrás dos "valores cristãos" para compensar o prejuízo.

Ou seja, a substância do problema - o Estado deve regulamentar o aborto ou não - nem é importante. Importante é agradar "uma parcela significativa do eleitorado". E essa parte importante está em franca campanha de tomada do Congresso. Acha exagero? Leia "Plano de Deus", de Edir Macedo.

Terminada a eleição, Serra e Dilma continuarão, em conversas "adultas", defendendo o papel do Estado nessa delicada questão de Saúde. Mas nem vão precisar se posicionar publicamente, já que todos sabemos que o assunto vai morrer rapidinho e até políticos que também são pastores ou médicos correrão atrás dos estádios para a Copa do Mundo.

O único aborto que interessa é o das chances do adversário político.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O monotrilho de Springfield

Em um dos episódios mais memoráveis dos Simpsons, a prefeitura de Springfield usa uma enorme quantia dos cofres públicos para instalar na cidade um trem de superfície caríssimo: basicamente inútil e perigoso. Ironicamente, na cena final um narrador comemora que a população aprendeu sua lição e jamais gastaria o dinheiro público com projetos absurdos novamente. Mas a imagem que vemos é de uma enorme escada rolante que não leva a lugar nenhum.
Pois bem.
O horário eleitoral tem nos mostrado candidatos a deputado que parecem perfeitos para disputar a eleição... em Springfield!  Entre os proponentes à Assembléia ou à Câmara, há alguns que merecem nossa especial atenção.
O meu favorito é um dentre dezenas de "candidatos cristãos" que nesse ano resolveram vincular suas campanhas a causas evangélicas. Sua principal proposta é a construção do "maior monumento da Bíblia no mundo".
Há uma poesia nisso: imagino que o monumento não será legível como livro; deverá conter, no máximo, meia dúzia de palavras com chavões proselitistas e o nome dos políticos envolvidos na "obra". Ou seja, perfeito para um país que ainda tem 14 milhões de analfabetos entre seus adultos.
Mas não são apenas com obras cósmicas que sonham nossos candidatos. Eles também têm o que consideram "propostas": "contra o aborto", "pela pena de morte a estupradores", "pela família brasileira" (que é um eufemismo para "contra o casamento gay!")...
Não estou aqui criticando a posição dos religiosos sobre esses assuntos (se empenhar na pena de morte, contra pesquisas genéticas, contra a liberdade da mulher e das conquistas de gênero é um retrocesso, mas devemos reconhecer e defender o direito de que todos lutem pelas suas convicções), estou notando que a agenda de interesse desses grupos parece residir num mundo que não é o que eu vivo.
Mais de 40% da população brasileira não tem água encanada e esgoto.
E um candidato manda uma corrente pela internet pedindo que as pessoas boicotem um filme ficcional que trata Jesus como gay. Aliás, pior que isso. Pedindo que se assine uma lista solicitando que o filme seja PROIBIDO no país.
E milhares de crianças nem chegam à escola porque os pais não conseguiram fazer registro de nascimento.
Os problemas de trânsito, poluição e desperdício são cada vez mais emergenciais. Qual é a proposta dos candidatos para isso?
Bom, talvez não seja prudente falar em "trânsito", pois alguém pode aparecer com um monotrilho luxuoso como solução...
A mídia tem evidente parcela de culpa nisso. O que vem sob a tag de "política" no noticiário, em geral se resume a exploração de escândalos fragmentados e desproporcionais. Quando se fala de "ética", considera-se meramente notícias de crimes ou supostos crimes.
É cedo para dizer, mas suspeito que a cobertura das eleições passadas foi muito mais madura que a atual. O que aconteceu para que o jornalismo desse um passo para trás? Condescendente, relativista, incapaz de se envolver em qualquer polêmica verdadeira, a mídia é um reflexo da própria atuação dos candidatos: severamente anti-intelectual, pobre e proselitista.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sangue, barro, pó, cicatrizes... o motivo de ser jornalista

Mergulhar no pó, no barro, na sujeira; afastar os galhos que ricocheteiam e deixam cicatrizes nas canelas, no rosto, no pulso; sentir o cheiro vívido do sangue e da gasolina, esfregar automaticamente os olhos ardidos com a fumaça...

É por isso que escolhemos o jornalismo.

A cada dia mais me convenço que uma intuição ancestral, um meme, um rastro deixado longiquamente por ancestrais dedicados a mapear o trajeto de suas caças é o ânimo oculto que nos empurra para a profissão.

De alguma maneira, a prática do jornalismo parece um amálgama entre a necessidade pré-histórica de decifrar os movimentos inusitados da natureza e a contemplação vicária decorrente da invenção e popularização da imprensa.

O jornalista narra e publica. Ao publicar, devolve sua solução dos enigmas investigados a nova apreciação. Ele narra como os caçadores paleolíticos, que eram capazes de reconstituir a epopéia de uma capivara por pegadas, galhos quebrados, ossos, buracos, pelos...

O jornalismo remonta uma tradição de compreender o mundo que sucumbiu ao predomínio da ciência galiléica, a da experiência. As matérias não são, nem nunca serão exatas: elas são fruto da impossibilidade de simplificação e normatização. Um acidente rodoviário não representa todos os acidentes; um político não é o mínimo múltiplo comum de todos os seus pares.

No entanto, outra tradição, a da conformação industrial, é também resultado direto de uma cultura muito sólida e enraizada na sociedade urbana. Embora mais recente, essa cultura nos preenche e nos exige, é até mesmo naturalizada em nossas ações. Ela é filha do pensamento cartesiano e fundada, claro, no paradigma de Galileu.

Por isso, encurtamos e esticamos nossas abduções, nossas conjecturas, em formatos paradoxalmente fechados, utilitários, otimizados, previsíveis. Falamos do momento único e peculiar (sempre tratamos do único, não importa que seja a 100ª matéria sobre corrupção ou buracos na vila) mas traduzimos em fórmulas, limites de caracteres e clichês de linguagem. O que chamamos de “estilo jornalístico” ou “padrão editorial” jamais passa de uma Cama de Procusto.

O jornalismo é ou não é um índice vivo do problema epistemológico das Ciências Humanas e Sociais?

Talvez nosso parentesco mais próximo não seja com os primos Direito, História e Literatura, com quem dividimos algumas pretensões éticas e intelectuais. Provavelmente seja com a Medicina.

Assim como os médicos, fazemos diagnósticos baseados em sinais fornecidos pela realidade. Também erramos na maioria das vezes. Assim como eles, conquistamos prestígio e ódio da sociedade com sazonalidade impressionante.

A medicina ganhou um prestígio que ainda não conquistamos, talvez porque nascida de uma confusão entre misticismo e ciência. A palavra conjectura praticamente vem à luz com Hipócrates. O diagnóstico é uma análise das "conjecturas". E não é a toa que sua origem latina esteja relacionada com “adivinhação”.

O jornalismo, por sua vez, nasce na sociedade cínica da técnica, da produtividade, dos números. Ninguém nunca acreditou, em nenhum período da história, que nossas compreensões relatadas da realidade eram fruto de clarividência. A narração se resume a nós, sem deuses ou invocações sobrenaturais, nossas escolhas de como olhar e o que relatar, o próprio relato, o dispositivo de interação e, finalmente, quem nos interpreta. 

No meio do circuito, muita educação semiótica se processou. O público da modernidade, já se disse, é semiótico: ele não só pondera a realidade, como as ferramentas que lhe mostram a realidade.

Então por que ser jornalista, esse artesão da esquizofrenia?

Talvez não tanto por causa dos fins – mostrar, denunciar, esclarecer, tecer a esfera pública, essa ambição ética e cosmológica  – mas pelo prazer da própria prática.

Queremos estar lá, no meio da confusão e dos galhos partidos, de joelhos no barro coletando as pistas que nos levarão, quem sabe?, à resolução final. Somos testemunhas com todo o corpo, não apenas com os olhos e ouvidos.

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Esse texto surgiu da enésima leitura de um artigo maravilhoso de Carlo Ginzburg chamado Chaves do mistério: Morelli, Freud e Sherlock Holmes, incluído na coletânea O signo de três, organizada por Umberto Eco e Thomas Sebeok (Perspectiva), mas também presente com tradução diferente em um livro do próprio Ginzburg, Mitos, Emblemas, Sinais (Companhia das Letras). Não deveríamos sair da faculdade sem estudar minuciosamente esse trabalho (inclusive por razões motivacionais).